Há uma afirmação muito repetida nas pregações cristãs: “ninguém merece a Salvação.”
Dita dessa maneira, essa afirmação parece humilde, piedosa e destinada a exaltar a misericórdia de DEUS. No entanto, quando examinada à luz de todo o ensino bíblico, ela produz um grave problema: transforma o mérito em algo ruim e pode levar o homem a tratar com displicência justamente aquilo que DEUS colocou sob sua responsabilidade.
É preciso começar esclarecendo o que significa merecimento.
Merecer não significa obrigar DEUS a nos dar alguma coisa.
Merecer significa ser considerado por DEUS digno da recompensa que Ele próprio decidiu oferecer, depois de julgar aquilo que fizemos diante das condições que Ele estabeleceu.
Quem julga não somos nós.
Quem julga é DEUS.
Por isso ninguém pode dizer:
“Fiz boas obras; portanto, DEUS me deve a Vida Eterna.”
O homem não conhece integralmente nem a si mesmo. Muito menos possui autoridade para estabelecer o resultado do próprio julgamento.
Mas isso não significa que não exista mérito.
Se DEUS julgará cada homem segundo as suas obras, necessariamente haverá aqueles que serão considerados dignos e aqueles que não serão.
O próprio SENHOR JESUS CRISTO disse:
“E eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra.”
Se há recompensa segundo a obra, há avaliação.
Se há avaliação, há mérito ou demérito.
E se haverá diferença de resultado entre os homens, não é correto ensinar que o mérito não possui importância na Salvação.
Todos nós já estamos condenados à morte
Outro erro muito comum é imaginar que a Lei de DEUS foi dada para colocar o homem sob condenação.
Não foi.
Quando DEUS deu Sua Lei no Monte Sinai, toda a humanidade já estava condenada à morte por causa do pecado que entrou no mundo através de Adão.
Paulo escreveu:
“Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens.”
A morte não começou no Sinai.
A morte já reinava desde Adão.
Portanto, a Lei não foi dada para criar a condição de morte do homem.
A Lei foi dada a homens que já estavam morrendo para lhes mostrar o caminho da vida.
Por isso DEUS disse:
“Os quais, observando-os o homem, viverá por eles.”
E novamente:
“Escolhe, pois, a vida.”
DEUS não estava ameaçando homens vivos com a morte.
Estava ensinando homens condenados à morte a caminhar em direção à vida.
Essa diferença muda completamente a compreensão da Lei.
A Lei mostra o caminho, mas não retira o pecado do mundo
Mesmo aquele que buscasse obedecer a tudo o que DEUS havia determinado continuava enfrentando um problema que nenhuma obra humana poderia resolver.
A morte herdada de Adão continuava presente.
A Lei ensinava como viver, mas não podia retirar aquilo que havia fechado para a humanidade o acesso à árvore da vida.
Por isso era necessário o Cordeiro de DEUS.
Quando João Batista viu o SENHOR JESUS CRISTO, declarou:
“Eis o Cordeiro de DEUS, que tira o pecado do mundo.”
O SENHOR JESUS CRISTO não veio simplesmente acrescentar novos ensinamentos àqueles que DEUS já havia dado.
Ele veio realizar aquilo que nenhum homem poderia fazer.
Veio retirar o pecado do mundo.
Veio abrir novamente a possibilidade da ressurreição.
Veio tornar possível que os mortos fossem novamente chamados à vida e que suas obras fossem consideradas.
Por isso o SENHOR disse:
“Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.”
E então distinguiu:
“Os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação.”
Observe a ordem.
Primeiro, o SENHOR chama os mortos.
Depois, considera-se o que fizeram.
A capacidade de ressuscitar nunca foi problema para DEUS.
O problema é: o que será feito com a vida daquele que for chamado novamente?
DEUS conhece cada um de nós em detalhe
Não existe qualquer dificuldade para DEUS identificar, reconstruir ou transformar um homem que morreu há milhares de anos.
O SENHOR deixou isso explícito ao dizer que até os cabelos da nossa cabeça estão contados.
O corpo pode voltar ao pó.
Pode desaparecer no mar.
Pode ser destruído completamente.
Isso não significa que a pessoa se perdeu para DEUS.
Apocalipse diz que até o mar entregará os mortos que nele estão.
Paulo ensina que nem todos morreremos, mas que todos seremos transformados.
Portanto, refazer um corpo ou dar ao homem um corpo adequado à Vida Eterna não representa dificuldade alguma para Aquele que criou todas as coisas.
A questão nunca foi a capacidade de DEUS.
A questão é Sua justiça.
A misericórdia de DEUS não elimina a responsabilidade do homem
A misericórdia é justamente o que leva DEUS a agir em favor de uma criatura que não poderia resolver sozinha o problema em que se encontra.
Nós não produzimos a vida.
Não somos proprietários dela.
Não poderíamos abrir novamente a árvore da vida.
Não poderíamos vencer a morte.
Não poderíamos produzir o Cordeiro de DEUS.
Mas DEUS podia fazer tudo isso.
E fez.
Não porque tenha nos considerado coitadinhos.
Fez porque conhece perfeitamente a criatura que criou, conhece todas as circunstâncias que conduziram a humanidade até aqui e sabe que, sem Sua intervenção, não existe esperança alguma de vida.
Essa é a misericórdia de DEUS.
Mas misericórdia não significa entregar Vida Eterna indiscriminadamente.
Se DEUS simplesmente desse Vida Eterna a todos, independentemente daquilo que cada um escolheu fazer, Ele perpetuaria eternamente o mesmo problema que levou o homem à morte.
Foi justamente por isso que, depois do pecado de Adão, DEUS impediu seu acesso à árvore da vida.
O homem não poderia viver eternamente na condição em que se encontrava.
A Vida Eterna exige que o homem aprenda a viver.
E ninguém melhor do que DEUS, que criou a vida e o mundo, para ensinar como devemos viver nele.
A Salvação é uma oferta condicional
A Salvação não foi imposta.
Ela é oferecida.
E a primeira condição já está na própria vontade do homem.
O SENHOR JESUS CRISTO disse:
“Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.”
Observe:
“Se queres.”
É preciso querer.
DEUS não obriga ninguém a receber a Vida Eterna.
Mas querer também não basta.
O SENHOR acrescenta:
“guarda os mandamentos.”
Portanto, há vontade, condição e resposta.
Depois da manifestação do SENHOR JESUS CRISTO, há ainda algo indispensável: recebê-Lo como o Filho de DEUS e como o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Apocalipse resume de forma extraordinária a condição dos santos:
“Aqui está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os mandamentos de DEUS e a fé em JESUS.”
Não é uma coisa ou outra.
São os mandamentos de DEUS e a fé em JESUS.
Receber o SENHOR JESUS CRISTO faz parte da obediência a DEUS.
O próprio DEUS determinou que o Filho fosse ouvido.
E os que viveram antes do SENHOR?
Antes da manifestação do SENHOR JESUS CRISTO, homens viveram confiando nas promessas de DEUS sem terem visto aquilo que posteriormente foi revelado aos apóstolos.
É nesse contexto que ganha enorme relevância a palavra dirigida a Tomé:
“Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.”
Houve homens que confiaram em DEUS sem terem visto o cumprimento.
Guardaram aquilo que lhes havia sido entregue.
Morreram esperando.
Para aqueles que vieram depois do SENHOR, a condição é diferente.
O próprio SENHOR orou:
“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim.”
Nós cremos através do testemunho daqueles que viram.
Eles viram.
Nós recebemos a pregação deles.
Mas houve homens que viveram antes mesmo desse testemunho existir.
Os 144.000 e o mérito de uma fidelidade que não podemos reproduzir
Apocalipse apresenta um grupo singular: os 144.000.
Eles são chamados de primícias para DEUS e para o Cordeiro.
Deles é dito que não se achou mentira em sua boca.
São apresentados como irrepreensíveis.
E recebem uma honra extraordinária:
“Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá.”
Há aqui algo muito maior do que simplesmente receber a Vida Eterna.
Há posição.
Há honra.
Há distinção.
Esses homens viveram em condições históricas que nós não podemos mais reproduzir.
Israel já não pode hoje existir exatamente na condição nacional em que DEUS o formou.
Muitos Estatutos e Juízos não podem mais ser praticados integralmente.
Isso não significa que passaram a ser errados ou desprezíveis.
O SENHOR deixou isso claro:
“Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no Reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos céus.”
Observe que ambos podem estar no Reino.
Mas um é chamado menor.
O outro, grande.
Portanto, a Vida Eterna não elimina diferenças de mérito, honra e posição.
Até os menores mandamentos revelam nossa consideração por DEUS
Há orientações dadas por DEUS que muitos hoje sequer considerariam importantes.
Depois da emissão de sêmen, por exemplo, DEUS determinou lavagem do corpo e das vestes ou tecidos atingidos.
Não se tratava simplesmente de higiene.
A pessoa permanecia imunda até a tarde.
A lavagem fazia parte de uma condição de purificação diante de DEUS.
O mesmo princípio aparece quando DEUS preparava o povo para encontros solenes.
Antes de falar no Sinai, ordenou que o povo fosse santificado e que suas vestes fossem lavadas.
DEUS veio no terceiro dia.
Havia preparação.
Havia separação entre aquilo que é carnal e aquilo que é espiritual.
DEUS é Espírito.
E aqueles que querem aproximar-se Dele precisam aprender a considerar essa diferença.
Talvez hoje determinadas estruturas da Lei não possam ser executadas como em Israel.
Mas ainda podemos perguntar:
O que DEUS quis ensinar com isso?
Podemos respeitar.
Podemos considerar.
Podemos desejar obedecer.
Podemos lamentar que determinadas condições históricas já não permitam a prática integral.
E até nisso pode haver diferença de mérito.
Um homem pode dizer:
“Isso não importa mais.”
Outro pode dizer:
“Se DEUS considerou importante ensinar, eu também considero importante aprender.”
Essas duas atitudes não são iguais diante de DEUS.
Mortos fisicamente, mas vivos para DEUS
A morte física não significa necessariamente perecimento.
O SENHOR falou de Abraão, Isaque e Jacó, homens fisicamente mortos, e declarou:
“DEUS não é DEUS dos mortos, mas dos vivos.”
Há, portanto, homens que morreram fisicamente, mas continuam vivos para DEUS.
A morte interrompe nossa existência corporal presente.
Mas não apaga diante de DEUS aquilo que fomos, aquilo que fizemos e a relação que estabelecemos com Ele.
Quando chegar o momento determinado, refazer ou transformar o corpo não será problema.
DEUS conhece cada pessoa integralmente.
A questão será outra:
como essa pessoa será considerada no julgamento?
O julgamento revela o mérito
Aqui chegamos ao ponto central.
Se todos recebessem a Vida Eterna sem merecimento, para que julgamento?
Se as obras não fossem relevantes, por que DEUS recompensaria cada homem segundo aquilo que fez?
Se não houvesse diferença de mérito, por que alguns seriam chamados grandes no Reino e outros menores?
Por que alguns seriam considerados dignos?
Por que alguns receberiam honras particulares?
O julgamento existe justamente porque a resposta do homem importa.
DEUS oferece.
O homem escolhe.
DEUS ensina.
O homem decide se aprende.
DEUS ordena.
O homem decide se obedece.
DEUS envia Seu Filho.
O homem decide se O recebe.
E depois DEUS julga.
O resultado desse julgamento é exatamente a consideração do mérito daquele que foi julgado.
Não mérito segundo nossa própria opinião.
Não mérito segundo uma religião.
Não mérito segundo comparação com outros homens.
Mérito segundo o julgamento de DEUS.
Ninguém receberá a Vida Eterna sem merecer
A misericórdia de DEUS criou para nós uma oportunidade que jamais poderíamos criar sozinhos.
O SENHOR JESUS CRISTO abriu o caminho que nenhum homem poderia abrir.
Mas essa oportunidade não elimina nossa responsabilidade.
Pelo contrário.
Quanto maior a oferta, maior deve ser nossa consideração por ela.
Ninguém receberá a Vida Eterna simplesmente porque existe misericórdia em DEUS.
Receberá porque, alcançado por essa misericórdia, ouviu, creu, aprendeu, guardou, perseverou e foi considerado por DEUS digno da recompensa prometida.
É por isso que a expressão “ninguém merece a Salvação”, quando repetida sem entendimento, pode ser tão perigosa.
Ela pode produzir exatamente o contrário daquilo que a Palavra de DEUS procura produzir no homem: responsabilidade, temor, perseverança, santificação e esperança.
A misericórdia não elimina o mérito.
A misericórdia nos dá a oportunidade de demonstrá-lo.
E, no fim, não seremos nós que diremos se merecemos.
Será DEUS.
Por isso vivemos na expectativa da Vida Eterna, não porque pensamos que DEUS nos deve alguma coisa, mas porque confiamos na promessa Daquele que disse que recompensará cada um segundo as suas obras.
Essa expectativa tem um nome:
fé.